Solta no mundo | Marcia do Valle
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Diretorio 100% brasileiro

Quer cuidar de mim, me ajudar a escolher o jogo de pratos do diário, o forro do sofá e a cortina? Quer cuidar de mim, providenciar um chaveiro, um gasista, um marceneiro e alguém para instalar o ar condicionado e as luminárias? Quer cuidar de mim, prender as coisas na parede, comprar uma escada e alguma coisa para pendurar as fotos? Quer cuidar de mim, levar o carro para a revisão, explicar que entrou água no farol e que o freio está fazendo barulho? Quer cuidar de mim, escolher o móvel da cozinha, o enfeite da varanda, esvaziar as malas e colocar cada coisa em seu lugar? Quer cuidar de mim, jantar comigo usando a melhor toalha de mesa, a louça chique e as taças de cristal? Cuida de mim, menino, tira a minha sensação de que o mundo não vai rodar se eu não girar todas as manivelas. Porque eu só tenho duas mãos, e as manivelas são muitas. Daí eu fico afobada, precisando deitar no seu peito. Deita no meu peito e se demora. Chega a me dar vontade de ser sua e te pedir para cuidar do que é nosso. Eu inclusive. Vem, me dá aquele abraço que me protege do mundo. Me dá aquele beijo de boa noite que me dá a certeza de que a noite vai ser boa, porque quando eu me virar na cama, você vai estar ali ao lado. Ando com saudade de você na minha cama. Ando sentindo falta até do seu ciúme. Não tem ninguém para se preocupar se os vizinhos conseguem me ver dormindo. Não tem ninguém para ganhar o carinho que só faço em você. Não tem ninguém para ocupar o espaço que você deixou vazio. Vem, menino, vem para perto de mim, mas não me faz chorar não. Deixa a carruagem continuar sendo carruagem quando o relógio soar meia noite. Deixa o sapatinho de cristal continuar no meu pé. Deixa o pé de feijão alcançar a nuvem onde fica o castelo. Traz o seu tapete voador e me leva para conhecer o mundo. Deita no meu peito e me devora. Me deixa com a sensação de que tem gelo seco no meu estômago. Só não vale colocar os talheres em forma de X em cima do guardanapo colorido, para não trazer a sensação de que já vi esse filme.


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Foi promessa, decisão de ano novo ou reza forte? Então esse braço é só para eu olhar e imaginar me pegando? Então essas costas largas são só para tornar a paisagem mais bonita? Então esse peitoral é só para me deixar com vontade? Então esse corpo todo é só para eu olhar de longe? E esse seu jeito de me olhar no olho, é para testar o seu poder de sedução ou a minha capacidade de resistência? Sabia que eu cheguei em casa e fiquei sozinha, pensando em você? E você, faz o que quando lembra de mim?



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Tudo o que tinha para ser escrito sobre você, já foi escrito. Tudo o que tinha para ser sentido, já foi sentido. Mas a sensação de déjà vu não impede que nada volte para dentro do meu peito. Não tira de mim aquela vontade de te beijar, que eu já senti tantas vezes e já me esforcei para parar de sentir outras tantas. Saber o fim da história não me tira a vontade de repeti-la. Como um filme que assisto várias vezes sem cansar. Assim como as combinações das forças gravitacionais e de translação da Terra se repetem a cada 19 anos, a bagunça que você faz na minha vida se repete a cada trimestre. Sempre a mesma montanha russa, com vento me descabelando, adrenalina, grito e olho arregalado. E depois que o carrinho chega lá embaixo, volta a subir e me faz acreditar em felicidade. Só que felicidade gera expectativa, e expectativa é a maior inimiga da felicidade. Ah, menino, por que é que tudo o que a gente já viveu não basta para te tornar desinteressante? Por que é que a bússola fica girando quando você diz que está com saudade? E por que a única coisa em que consigo pensar agora é nesse seu amor que eu não acreditei que existisse?


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Sem bobeira, sem sarro, sem tesão, sem sacanagem, sem mão boba, sem beijo na boca nem sexo. Nem pensa em me provocar, em falar perto da minha boca, em ficar bem atrás de mim na multidão ou em encostar em mim por acaso enquanto a gente conversa. Nada de dormir perto de mim porque eu não quero cair em tentação. Não quero nem que você me olhe desse jeito que você costuma me olhar.

Sem bobeira, sem encanação, sem stress, sem compromisso nem grandes reflexões. A gente já está bem grandinho para saber misturar sexo e amizade sem se machucar. Mal-estar só quando a gente ainda era bobo e criança, há um tempão atrás, em 2005. Agora a gente já aprendeu que beijo é beijo, tesão é tesão e amizade é amizade. Cada coisa no seu lugar.

Sem bobeira de sair falando o que pode ter vários sentidos. Porque quando eu falo ¿sem bobeira¿ e você responde que era isso que você queria ouvir de mim, eu fico sem saber o que essa sua resposta quer dizer. Quem foi que inventou essa chatice de virar o feitiço contra o feiticeiro?




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Se eu quiser, chego lá. Porque o meu limite, quem impõe sou eu mesma. Se eu quiser pouco, será pouco. Se eu não quiser nada, nada será. E se eu quiser o céu, ninguém me impedirá. Então, é só eu escolher um número e ele vai acontecer. É só eu pensar em uma situação, que ela vira realidade. É só eu mentalizar um objetivo, que ele sai do terreno das impossibilidades e chega bem perto de mim. Daí a minha certeza de que aquele exemplar vai ser lido e elogiado. Daí a sensação de que felicidade existe. Daí a minha resolução de não desejar um ano novo cheio de paz. Que paz que nada, quero é sucesso!



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Eu gosto de carinho no dia seguinte. Gosto de torpedinho, de recado piscando na secretária eletrônica quando chego em casa e de comentário no blog do tipo ¿também estou pensando em você¿. Gosto de ligação não atendida se eu estiver em reunião. Gosto de resposta aos meus e-mails, mesmo que seja avisando que não vai dar para combinar nada, mas que a idéia era boa. Gosto de qualquer sinal de fumaça que simbolize ¿olha, a gente não tem nenhum compromisso mas é bacana quando a gente se encontra¿. Quem disse que eu vou ficar pensando que você queria que eu estivesse pensando diferente do que eu estava pensando que você queria? Não, eu não pensaria nada demais se você desse sinal de vida, só me sentiria quase tão especial quanto o seu porteiro, que ouve o seu ¿boa noite¿ cada vez que você chega em casa.



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Chega de me olhar de longe. Me pega de jeito, como você parece querer. É só você jogar no lixo as suas loiras, que eu deleto os meus rolos. É só você me agarrar que eu passo a ser sua, pelo tempo que você quiser. Melhor do que todas essas pessoas, que a gente nem vai lembrar do nome no ano que vem. Confessa que sente ciúmes e eu paro de te olhar escondida atrás dos óculos escuros. Chega de meias palavras, eu até engoli o orgulho para dizer que fiquei chateada! Cadê o meu beijo para fazer as pazes?



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Tin-tin! Um brinde à noite, um beijo em cada boca, um abraço no mundo e uma massagem com óleo perfumado. Se não nos deixarem entrar, vamos para a porta ao lado, onde as latinhas extras ficam num balde com gelo, o champagne está gelado, a fumaça não incomoda, os espelhos estão em todas as direções, a música é brega e a gente dança bolero pelado. O ano começou trazendo torpedos e convites. Estás a fim? Eu estou, mesmo se tiver que antecipar a programação do mês. Aproveita que eu gosto do que nem todos gostam e me pergunta o que nem consigo responder, já que a ordem dos acontecimentos está embaralhada. Conta o lixo e me deixa provocar o que não acontece sem a minha participação, mas não esquece que puxar o cabelo é para quem conhece a técnica. Não é à toa que aparece outro torpedo dizendo que foi tudo de bom. Me acorda na hora de ir embora e depois me explica como é que o meu carro me levou para a minha casa e eu acordei com meio toblerone na cabeceira.


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A gente sente sem falar, fala sem pensar e pensa sem admitir. A gente enxota o querer do peito, mas ele entra pelos olhos. A gente pensa que pode fazer do jeito que quiser, mas o que não foi planejado sempre parece mais interessante. A gente finge que entende esse sentimento que não tem nome nem padrão, mas só o que a gente consegue entender é que ele não some. A gente combina de um jeito e depois faz tudo diferente. A gente não combina nada e faz um mundo inteiro. E quando a gente vê, você já está acordado às sete da manhã, para ganhar carinho antes do meu trabalho. E quando a gente nota, eu me despeço de você com vontade de voltar no fim do dia. E quando a gente se dá conta, essa amor que a gente chama de carinho, já ocupou todos os espaços que nem estavam vazios.



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