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Mais uma para a filha
Nunca fui muito de ficar doente. Talvez por isso mesmo, quando ficava, eu sempre me assustava. Ficava com medo mesmo. E quando o medo era muito grande, a única pessoa que realmente conseguia me acalmar era meu avô Valle. Mas o tempo passou, avôs não são eternos, sou um das netas mais novas, e há 10 anos ele não está mais aqui. No seu parto, filha, eu tive muito, mas muito medo. Acho que a maioria das mães tem. E como era de se esperar, o que eu mais queria no mundo era que ele estivesse ali comigo. Talvez ele até tenha estado ali de alguma forma, não sei. Mas o tempo continuou passando e ele continuou não estando mais aqui, pelo menos fisicamente. Então, nesses dias, fiquei doente e fui para um hospital. Com medo, claro, porque sou medrosa mesmo. Mas para minha surpresa, descobri que o seu avô virou um vovô Valle também (se dependesse só do sobrenome, ele já poderia ser há séculos). Mas o seu avô, agora, também é uma presença calma, que me tranquiliza. Você não sabe, filha, mas ele era bem diferente quando eu tinha a sua idade. Talvez seja você que esteja ensinando ele a ser um vovô Valle. Acho que é sim. Então, além de te pedir o seu vovô Valle emprestado de vez em quando, como nessa vez que fui para o hospital, também queria te dar os parabéns. Aliás, para vocês dois. Porque ensinar e aprender a ser um vovô Valle não é para qualquer um não. Pelo contrário, esse é um dos títulos mais altos que alguém pode ter para mim. Te amo, filha, muito mesmo!
posted by MÁRCIA DO VALLE
22.12.11
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Pior do que andar em círculo e voltar sempre para o mesmo lugar, é dar voltas e voltas e não conseguir mais voltar para o mesmo lugar.
posted by MÁRCIA DO VALLE
16.12.11
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Vontade é coisa que dá e passa. Bem que saudade também podia ser assim...
posted by MÁRCIA DO VALLE
13.12.11
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Uma amiga me perguntou, só de curiosidade, de que eu brincava com a minha filha. Vai que um dia ela tinha uma filha também, era bom saber. Então, na maior parte das vezes, a gente brinca de boneca. Talvez porque eu também gostasse de brincar de boneca, mas o fato é que me divirto brincando de boneca. Já o vovô, por exemplo, não brinca de boneca. Ultimamente, ele tem gostado de assistir filme ou jogar com ela no computador. Uma amiga minha que tem um filho, me contou que brinca muito de carrinho com o filho dela. Isso deve ser bem sem graça, mas é o tipo de coisa que você deve passar até a curtir quando vira mãe de um menino. Mas tem também as vezes que a gente joga algum jogo, tipo jogo da memória, e tem também as várias vezes em que ela brinca sozinha enquanto eu faço alguma outra coisa. Se bem que, cada vez mais, a pequena tem gostado de me ajudar a fazer estas coisas, em vez de ficar brincando sozinha. Outro dia, por exemplo, abri o varal de chão e, enquanto eu estendi uma máquina de lavar inteira no varal de teto, ela estendeu umas quatro ou cinco meias no varal de chão. E adorou. Às vezes, ela me ajuda a cozinhar e depois come tudo dizendo que a comida que ela fez ficou gostosa. Nossa especialidade é macarrão, mas uma vez a gente fez um bolo para levar numa festa junina e foi sucesso absoluto. Sem contar, nas vezes em que a gente passeia e brinca no parquinho ou em outros lugares onde tenha espaço para correr, jogar bola, andar de bicicleta, etc. Mas isso é hoje, que ela já cresceu. No início, eu simplesmente cuidava dela, e isso também era legal. Se ela conseguisse segurar num chocalho, pronto, já era motivo de festa. Aos poucos e bem devagarzinho é que ela foi aprendendo a brincar. Mas o que eu queria ter conseguido explicar para a minha amiga é que ninguém consegue ensinar ninguém o que fazer com o seu filho. Porque o próprio filho (ou filha) é que ensina a gente a ser mãe. Um pouquinho a cada dia. E aos poucos, a criança vai nos ensinando a ser mãe de uma criança um pouquinho maior. E isso é gostoso demais!
posted by MÁRCIA DO VALLE
11.12.11
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Quando a gente está junto, eu curto. Milhões. E isso não traz nenhuma obrigatoriedade de acontecer nada depois que a gente se despedir. E se depois me der vontade de te ligar, ou te encontrar de novo, te ligo, te encontro e faço o que está me dando vontade de fazer naquela hora. Porque minhas vontades são assim mesmo, transbordam, então é melhor eu nem tentar reprimi-las. Mas se te ligo ou te encontro de novo, isso também não traz nenhum compromisso nem rótulo, é só uma vontade que virou realidade naquele momento. Eu sou assim, vivo um dia de cada vez, aproveitando cada coisinha que sinto em cada momento, sem medo de sentir, muito menos de demonstrar o que sinto. Então se deixo claro quando estou curtindo, também deixo claro o que não curto. Se você fala que não quer me usar, discordo desse ponto de vista, porque se duas pessoas estão curtindo junto é porque ninguém está usando ninguém. Se você deixa claro que só não me pede para ir para longe para não me magoar, tenho que te avisar que isso já me magoa. Mas se depois você pede desculpas, eu desculpo sim, na hora, e já me dá vontade de te encontrar de novo, sem novos desencontros. Então vamos descomplicar e fazer o que der vontade, quando der vontade, e deixar para pensar no depois, quando o depois chegar. Aquela vontade de ver o filme do Selton Melo, por exemplo, achei bem bacana, mas você falou tão baixinho e tão rápido que já notei logo várias paranóias atreladas a essa vontade. Vamos deixar as paranóias de lado e vamos curtir o que der vontade de curtir. Vamos aproveitar que “curtir” pode ser alguma coisa bem mais bacana do que uma tecla do facebook.
posted by MÁRCIA DO VALLE
4.12.11
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Mais uma para a filha
Ontem, filha, três horas da manha, você acordou querendo tomar café da manha e se arrumar para ir no seu primeiro passeio com a escola. Então te expliquei que ainda não estava na hora e voltamos a dormir. Só que as seis e meia, quando te acordei, você disse que nem queria ir, e tive que te falar de tudo de legal que ia ter no passeio, até te convencer a ir sim. Esse é o tipo de situação em que vejo que você é bem minha filha mesmo. Porque hoje, que não sou mais criança, também fico ansiosa quando vai acontecer alguma coisa bacana, também tenho medo quando chega a hora de aproveitar o que é mais legal do que estou acostumada, tudo igualzinho a você. O que mudou é que, atualmente, não é mais o passeio da escola que me faz sentir assim, mas a sensação é a mesma. Na minha opinião, filha, sentir tudo isso é bom demais. Ficar na média o tempo inteiro não teria graça nenhuma, o bom é se arriscar a descobrir o que é melhor do que a média, ainda que por pouco tempo. Nem todo o mundo pensa assim. Tem gente que prefere continuar sempre em terreno conhecido, sem surpresas, sem riscos. Mas olha, se eu conseguir te ensinar a arriscar o novo, mesmo sentindo medo na hora H, mesmo com aquela agoniazinha que aumenta a felicidade que vem depois, se eu conseguir te ensinar a enfrentar tudo isso e seguir em frente, você vai aprender um dos valores que considero mais importante. E a parte boa, filha, é que acho que você já esta incorporando esse valor sim. Porque você foi no passeio e adorou! Voltou cheia de novidades! Te amo demais, filha! Demais mesmo!
posted by MÁRCIA DO VALLE
24.11.11
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Perigosa não, talvez um pouco exagerada, complexa, transparente e, porque não, contraditória também. Alguém que nunca soube escolher direito entre as exatas e as humanas, entre publicar textos na internet ou esconder dentro do armário, entre pedir um temaki ou pegar um avião. Sou desse jeito meio confuso mesmo. Não sei se a terceira garrafa 'e sinônimo de algemas, se as pessoas da mesa ao lado estão falando de mim, se vou ganhar uma surpresa ou uma barba feita da próxima vez, nem quando que poderia ser essa próxima vez, mas, por via das duvidas, tento me comportar. Também não sei lidar direito com rotina e repetição, então acabo improvisando um chopp que nem 'e chopp, numa cidade que nem 'e a minha, com um primo que nem 'e primo, ou será que 'e? Perigosa não, mas muitas outras coisas sim. Será que vale a pena descobrir o que?
posted by MÁRCIA DO VALLE
18.11.11
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Mais uma para a filha
Quando eu era criança, cada vez que eu ficava doente, pedia para meu avô vir cuidar de mim. E ele vinha. Às vezes, de madrugada. O seu avô, filha, não é médico, mas quando você fica doente, ele te leva no pediatra. Isso não é pouca coisa não, porque ele teve quatro filhos e você é a quinta neta, mas você é a primeira criança que ele leva ao pediatra. Carinho de avô é bom demais, filha, mas isso é uma das coisas que nem preciso te ensinar, porque você já sabe.
posted by MÁRCIA DO VALLE
24.10.11
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Mais uma para a filha
Depois de começar o ano na capoeira, mudar para o ballet, depois para o judô, agora minha filha quer voltar para o ballet. Inicialmente, achei que meu papel como mãe demandava que eu conversasse com ela e explicasse que não pode ficar mudando de idéia toda hora. Que ela devia pensar bem, escolher uma das opções, e permanecer na atividade escolhida ate o fim do ano. Só que esse discurso me soou quase como um velório das suas pequenas vontades de menina. Então se ela escolheu capoeira, nunca mais pode sonhar em ser bailarina. Ou, como se isso fosse amenizar, só pode voltar a ser livre para ter sonhos deste tipo no inicio do ano que vem. Data marcada e com prazo curto para sonhar. Quer sonhar, expressar suas vontades, voar para a terra do nunca? Nada disso, engula os sonhos e as vontades e tente ressuscita-los quando for autorizada. Ah, não, não é esse tipo de postura que vou ensinar a ela não. Não vou engessar suas asas antes mesmo dela aprender a fazer um vôo solo. Não tenho como ensinar a ela conceitos que nunca aprendi, por não concordar com eles. Então, se daqui a pouco ela quiser voltar para o judô, ou para a capoeira, eu vou é ficar tranquila de saber que ela é bem minha filha mesmo. Saber que ela também gostaria de escolher tudo ao mesmo tempo, mas como não pode, acaba mudando de idéia toda hora. Te entendo, filha, viver uma vida de cada vez, escolher somente um caminho a cada bifurcação, esse é mesmo um dos maiores desafios do mundo. Então não precisa ter pressa para aprender a lidar com estas limitações que a vida nos impõe não. Aproveita a sua pouca idade para alternar entre todos os caminhos, de todas as bifurcações, sempre que der. Porque com o passar do tempo, isso vai demandando cada vez mais coragem e criatividade. Se um dia você quiser que eu te ensine a continuar driblando esta regra social que impõe a todos escolhas imutáveis, serei sua melhor professora. Mas se você preferir aprender a manter suas escolhas a qualquer preço, não vou achar ruim não, filha, só que você vai precisar de outra pessoa para te ensinar isso. Essa matéria não sei lecionar não, nem mesmo para respeitar suas decisões. Me falta vocação. Te amo, filha, demais!
posted by MÁRCIA DO VALLE
5.10.11
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Para quem está indo para o outro lado do continente
Eu só queria que você se tornasse pai de verdade, para a gente poder conversar de igual para igual. E como eu quis isso durante todos esses anos. Eu só queria que você enxergasse quão desesperadamente eu venho te pedindo ajuda, porque seria impossível você continuar negando se conseguisse entender o quanto preciso da sua ajuda. Eu só queria poder dividir minhas preocupações sobre a sala do soninho, limites, alimentação e cuidados médicos. Eu só queria ter alguma opinião para ouvir, a sua, na hora de escolher a escola, o horário escolar e a atividade física da pequena, porque tomar todas as decisões sozinha pesa muito em cima de mim. Eu só queria ter conseguido assimilar a informação de que você não faz nem nunca vai fazer estas coisas, porque assim eu não ia continuar me desapontando continuamente com você. Eu só queria nunca mais lembrar, muito menos sentir, aquilo que senti quando você foi numa caravana. Mas entre querer e conseguir existem labirintos e mais labirintos, cheios de portais tridimensionais. Então mesmo querendo tudo isso, o máximo que consigo é constatar que você vai continuar fazendo, cada vez com mais maestria, o que você já faz há mais de três anos: me deixando na mão.
posted by MÁRCIA DO VALLE
3.10.11
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Mais uma para a filha
Quando você nasceu, filha, eu não sabia cuidar de você como cuido hoje. Isso veio com o tempo, aos poucos. Lembro da primeira vez que você ficou doente, da primeira vez que pegamos um avião sozinhas, da primeira vez que você passou mal e não tinha ninguém por perto para me ajudar, da primeira vez que fomos à praia sozinhas, da primeira vez que viajamos de carro sozinhas, e de muitas outras primeiras vezes. Se lá atrás me dissessem que a gente conseguiria conquistar tudo isso, acho que eu nem teria acreditado. Na primeira vez que te levei sozinha ao pediatra, por exemplo, eu já estava me achando a mulher maravilha por estarmos lá sozinhas, quando descobri que você ainda teria que tomar uma vacina. Ah, filha, pensei até em deixar para outro dia, quando tivesse alguém para ir comigo, mas acabei topando enfrentar esta empreitada sozinha pela primeira vez também. Olha, eu devo ter envelhecido alguns anos ali, de tão tensa, mas quando a gente foi embora, fiquei tão feliz de ter conseguido, que te levei para tomar uma água de côco no calçadão. Só nós duas, para comemorar nossa vitória. É, filha, tudo isso já ficou para trás, ainda bem, mas às vezes me pergunto se a gente não alcançou uma independência grande até demais, que faz a gente se fechar no nosso mundo, onde só existimos nós duas. Nenhum exagero é bom, por isso sempre tento buscar o meio termo com você, mas em alguns pontos isso é um desafio e tanto para mim. Esse meio termo, por exemplo, que fica entre sermos independentes e vivermos num mundo só nosso, esse daí eu torço muito para conseguir encontrar. Por nós duas. Te amo demais!
posted by MÁRCIA DO VALLE
2.10.11
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