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"Somos mesmo demais
Somos demais
Nada é difícil demais para nós"
Backyardigans
Filha, eu sempre tive tanta autoconfiança, mas tanta, que chegava a ser até meio metidinha, sabe? E por conta dessa autoconfiança toda, eu sabia que poderia escolher o caminho que eu quisesse. Mesmo se fosse um caminho difícil, com curvas muito fechadas, ou com trechos muito estreitos, se eu quisesse escolher eu poderia. Até se viesse a bola mais quadrada do mundo, eu conseguiria matar no peito e ainda fazer gol.
Só que quando você nasceu, eu mudei muito. E no meio de tantas mudanças, essa minha autoconfiança ficou para trás, virou coisa do passado. Então, passei a achar que eu tinha mesmo é que escolher só os caminhos mais fáceis, como a maioria das outras pessoas faz. Porque os outros caminhos, ah, melhor nem pensar neles não. Esses outros caminhos poderiam ser difíceis, complicados, poderiam se mostrar além das minhas limitações, completamente inviáveis para mim.
Mas ainda bem que o tempo foi passando, passando, e aos poucos a minha autoconfiança foi voltando devagarzinho, sem alarde, um pouquinho a cada dia. Ainda bem. Pode até ainda ser cedo para eu falar isso, mas agora, depois de quase dois anos, finalmente estou voltando a me sentir capaz de escolher o caminho que eu quiser. Mesmo se for tão confuso que pareça um labirinto. Pode vir labirinto, pode vir trilha sem sinalização, que eu vou dar conta. Nossa, filha, nem consigo te explicar como é bom voltar a sentir dessa forma. Sei lá, livre. Acho que ouvir as musiquinhas do seu DVD preferido tem me feito um bem enorme. Te amo, filha, infinito!
posted by MÁRCIA DO VALLE
10.11.09
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Mais uma carta para a filha
Outro dia, filha, um amigo nosso que sempre tem me visto com você ou falando sobre você, me viu conversando com o seu tio sobre um outro assunto qualquer. E ele comentou como eu sou super madura e segura quando o assunto é você, com opiniões sólidas e estruturadas, e como eu me transformava numa adolescente para outros assuntos. Claro que ele me disse que eu deveria tentar ter a mesma postura que tenho com você para outros assuntos também, e claro que isso me pareceu uma misão impossível.
Esse amigo nosso tem razão, filha. Sem querer tirar onda, mas eu concordo que minha postura como mãe é bacana. No mínimo, é exatamente como eu acho que deva ser. Mas para outros assuntos... Ah, filha, às vezes eu pareço ter uns 12 anos, a idade da sua prima mais velha. Vou torcer para, com o tempo, eu conseguir trazer essa postura mais madura para outros setores da minha vida. Senão, daqui a pouco, para algumas coisas eu vou ser mais criança do que você! Beijos, filha, infinitos beijos!
posted by MÁRCIA DO VALLE
8.11.09
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Mais uma carta para a filha
Logo depois que você nasceu, filha, eu combinei que estavam começando ali as aventuras de nós duas, e que assim a gente seria feliz. Mas confesso, filha, que me assustei, tive medo, e realmente começamos a construir a vida de nós duas, isso foi nos fazendo cada vez mais felizes, mas sempre fui deixando as aventuras para depois, sem chegar a cumprir o que eu tinha combinado com você.
Até que nesse feriado, filha, depois de diversos tipos de ensaios, finalmente começamos nossas aventuras. E o melhor de tudo é que vi que foi só a primeira de muitas outras que ainda estão por vir, que não preciso ter medo não. Enquanto eu vencia todos os meus fantasmas interiores e dirigia naquela estrada com você, fui me lembrando das outras milhões de vezes que eu já tinha pegado essa mesma estrada, sempre com os meus amigos, e fui me dando conta de que a partir de agora, as outras milhões de vezes que eu passar por ali, vai ser com você. Provavelmente, na maioria das vezes, nós vamos com esses mesmos amigos que sempre viajaram comigo para lá, mas terão também as vezes que nós iremos sozinhas, como agora.
Filha, sei que você adorou o nosso feriado diferente, e eu também. Mas o que estou querendo te mostrar é que, além de ter sido bacana, foi um marco, foi o início de um monte de coisas. Finalmente, foi o início das aventuras de nós duas. Nossas fantásticas aventuras. Te amo, filha, imensamente!
posted by MÁRCIA DO VALLE
6.11.09
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Mais uma carta para a filha
Hoje, filha, a gente foi ao cinema ver o filme de um ursinho. Daí, na entrada e na saída do cinema, tinha uma pessoa com a fantasia do ursinho, brincando com as crianças. Tanto na entrada quanto na saída, você olhava fascinada para o ursinho, quase sem piscar. Quando ele virava de costas você ficava chamando “ursinho, ursinho...”. Quando ele se afastava um pouco, você ia correndo atrás dele. Quando ele te olhava, você mandava beijo e dava tchau, toda feliz. Mas era só ele tentar se aproximar, que você me agarrava apavorada e quase chorava com qualquer possibilidade de ganhar um abraço do tal ursinho.
Eu não tenho a menor idéia do motivo do seu medo de uma coisa que você estava curtindo tanto, mas tenho que te contar que eu sou assim até hoje, e que isso ao é nada bom. Sei lá, filha, é como se eu fosse descoladíssima para curtir tudo o que fica dentro da minha faixa de segurança, tudo o que eu que vou curtir só por um tempo, ou só com uma intensidade baixa, ou as coisas que têm tantas contra-indicações que eu vou acabar parando mesmo de curtir. Isso tudo, que é a maioria das coisas da vida, eu tiro de letra. Mas quando aparece alguma coisa que tem chances de ser mais bacana do que a grande massa... Ah, filha, eu recuo que nem você faz, morrendo de medo nem sei de que. Pode ser medo do desconhecido, medo de perder o pedacinho racional minúsculo que eu tenho, ou até medo de ser feliz além da conta e, por conta disso, depois ter que ser infeliz além da conta também. Porque quanto mais alto é o tombo, maior a queda.
Mas olha, filha, apesar de me reconhecer nesse seu medo do que tem chances de ser bom além da conta, o que eu torço mesmo é para você aprender a encarar esse medo de frente até acabar com ele. E torço para você fazer isso logo, de preferência enquanto ainda é criança. Porque depois de crescer, fica cada vez mais difícil encarar esse medo e deixar ele para lá. Te amo, filha, muito mesmo!
posted by MÁRCIA DO VALLE
18.10.09
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Mais uma carta para a filha
Às vezes, filha, sou um pouco anti-social. Não me esforço muito para conhecer novos grupos de amigos, aprofundar novas amizades, nada disso. Sou capaz de começar a trabalhar num lugar novo e passar meses e meses sem ir a nenhum happy hour que o pessoal marca, apesar de achar todos muito simpáticos. E se sou assim, filha, é porque no fundo, acho que já encontrei as verdadeiras amizades que valem a pena, e que elas já me bastam. Não tenho paciência para investir em novos potenciais amigos que só vou descobrir se realmente valem a pena daqui a um tempão. Não, prefiro os meus amigos que já passaram dessa fase. Aqueles que já conhecem meus defeitos, da mesma forma que eu também conheço os deles, mas que a gente escolhe continuar sendo amigo mesmo assim.
Estou te contando tudo isso, filha, porque acho importante você aprender sobre amizades. E nesse fim de semana a gente encontrou vários desses meus amigos que realmente valem a pena. E todos eles, sem dúvida, podem ser ótimos professores para te ensinar um pouco mais sobre amizade, assim como a tia Monica, a tia Laura, a tia Manu, a tia Barbara, o tio Tico, a tia Chris, o tio Alan, e outras pessoas que não encontramos nesse fim de semana, mas que também podem fazer parte desse corpo docente. Te amo, filha, muito!
posted by MÁRCIA DO VALLE
7.10.09
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Mais uma carta para a filha
Antes de você nascer, filha, quando a sua tia me contava que o seu primo tinha se arrebentado todo e ela tinha levado ele no médico, no hospital, blábláblá, eu dizia que, se um dia eu tivesse um filho, ia ter que ligar para ela quando acontecesse alguma coisa assim, porque eu não saberia dar conta sozinha não.
Hoje, mais uma vez, eu vi que dou conta de cuidar de você sozinha quando as coisas dão errado sim. A necessidade faz a gente superar limites considerados quase impossíveis. Mas olha, filha, depois de passar aquele sufoco todo e conseguir um médico que colocasse seu braço de volta no lugar, eu te peço uma pausinha antes do próximo susto, tudo bem? Porque agora que você já está ótima de novo, sou eu que pareço ter sido atropelada por um trator. Eu posso até parecer uma super mulher quando é necessário, filha, mas a verdade é que sou de carne e osso. E me fazer de super mulher cansa mais do que qualquer outra coisa.
Beijos, filha, e se cuida. Mas quando você não se cuidar, pode deixar que eu continuo cuidando de você.
posted by MÁRCIA DO VALLE
2.10.09
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Mais uma carta para a filha
Desde que você nasceu, filha, eu mudei muito. A pessoa que eu era, ficou lá atrás, e nasceu uma nova Márcia, junto da neném linda que estava nascendo. E essa nova Márcia é tão diferente da antiga, que fui aprendendo a lidar com ela aos poucos, bem devagarzinho. No início, estranhei tanto essa nova mulher que tinha tomado conta do meu corpo, que deixei ela trancada em casa. Aos poucos, fui aprendendo a deixar ela sair e ela foi aprendendo a ser mãe fora de quatro paredes. Olha, filha não foi fácil não, precisou da ajuda de um monte de gente. Só depois é que ela começou a aprender a ser mãe fora de quatro paredes e sem precisar da ajuda de um monte de gente. Nossa, filha, também foi bem complicado aprender isso, mas hoje eu e você já somos mestras em inventar mil programinhas nos nossos finais de semana. E a gente se diverte, filha, um montão!
Daí, quando eu achava que essa nova mulher que ocupou o meu corpo desde que você nasceu, que essa nova mulher já tinha aprendido tudo o que tinha para ser aprendido, você começou a passar os finais de semana com o seu pai. Sábado e domingo. Puxa, filha, os finais de semana que a gente está junto são a minha especialidade, mas nos finais de semana em que você está longe, essa Márcia em que eu me tornei ainda fica um pouco perdida. Porque a idéia inicial, claro, foi retomar tudo o que eu fazia nos finais de semana antes de ser sua mãe. Só que eram as coisas que a Márcia de antigamente gostava de fazer, não eu. Claro, algumas coisas se mantiveram, continuo adorando assistir o seu tio onde quer que seja, continuo gostando de passar nas festinhas dele e dos amigos dele, comer comidinhas feitas na hora e, de quebra, ouvir Tatih Koler fazendo quase um show privê para a gente. Pois é, filha, eu mudo, mudo, mas o seu tio continua sendo especialíssimo, como sempre. Outras coisas também se mantiveram. A praia, por exemplo, continua sendo minha segunda casa, com ou sem você. Mas há também coisas que eu adorava e perderam um pouco a graça, outras eu adorava fazer sozinha antes e agora prefiro fazer junto de você, e tem ainda as que eu nem dava muita bola, mas que estou descobrindo serem bem bacaninhas. Só que tem algumas coisas, filha, que eram naturalíssimas para a Márcia de antigamente, e que absolutamente não têm mais nada a ver comigo. E se eu insistir, é como se eu estivesse me auto-violentando, desrespeitando minhas novas vontades e meus novos limites. O mais difícil de tudo, filha, é identificar o que é que está na caixinha do que eu continuo gostando, o que foi parar na caixinha do que eu não tolero mais, e o que ficou em cada caixinha intermediária. Bem que eu queria que fosse tudo bem didático, como as suas forminhas encaixando nos buraquinhos que estão pintados com a mesma cor. Mas infelizmente, a vida não costuma facilitar tanto o aprendizado e o mais frequente ainda é aprender experimentando, quer seja acertando ou errando.
Beijos, filha, te amo!
posted by MÁRCIA DO VALLE
30.9.09
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Mais uma carta para a filha
Agora, filha, em vez de passar só o domingo com o seu pai, você passa o sábado e o domingo com ele, fim de semana sim, fim de semana não. Por um lado, me dá uma saudade do tamanho do mundo. Me pego olhando para cada criança que cruza comigo, pensando nas coisas que você estaria fazendo se estivesse comigo, imaginando o que você deve estar fazendo longe de mim, lembrando do seu jeito... Daí, me descubro quase órfã, torcendo para o fim de semana acabar logo para você voltar para perto de mim, e a saudade parece um poço sem fundo.
Ao mesmo tempo, às vezes consigo engolir essa saudade e aproveitar coisas simples que eu não aproveitava há muito tempo, porque são incompatíveis com estar com você. Sei lá, ir ao cabeleireiro no sábado de manhã, ou fritar na praia o dia inteiro sem me preocupar com hora do almoço, ou sentar num restaurante e almoçar com calma, ou qualquer outra coisa banal assim, mas que eu não fazia praticamente desde que você nasceu.
Ah, filha, não dá para ser titular em todas as posições no mesmo jogo, mas que dá a maior vontade, ah, isso dá. Eu queria é conseguir fazer tudo ao mesmo tempo, assobiar e chupar cana, dormir e ver o sol nascer, ser feliz e sonhar. Por isso a minha vontade de ser várias ao mesmo tempo. Para uma poder aproveitar todos os finais de semana com você, outra poder fazer essas coisas bobas que eu não consigo fazer com você, e outra eu nem sei. Mas para isso, você também precisaria ser pelo menos duas, para uma aproveitar todos os finais de semana comigo enquanto a outra aproveita os finais de semana com o seu pai. Só que se esse sonho fosse possível, o mundo já estaria com a lotação esgotadíssima, porque com certeza nós não seríamos as únicas a querer se dividir em dois, ou três, ou em muito mais.
posted by MÁRCIA DO VALLE
29.9.09
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