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Eu só queria a adequabilidade e aceitação que tem um sofá branco na frente de uma televisão, ou uma chave de casa dentro de uma bolsa de mulher. Queria o que é considerado normal e natural, como um copo de vidro cheio de água, ou uma meia dobrada dentro de uma gaveta. Só que as minhas gavetas são muito fundas, ou muito rasas, ou muito cheias de vontades, cicatrizes e peculiaridades. Eu só queria a capacidade de ser feliz com o simples, com o básico, como as pessoas que passam por mim pela rua, no elevador, e nos outros lugares onde circulam os anônimos e os conhecidos. Me satisfazer com uma rotina de comer pizza nas noites de sexta, fazer feira aos sábados de manhã, almoço com a família nos domingos, e outras coisas que costumam preencher a rotina e trazer satisfação. Queria olhar para uma folha em branco e não imaginar tudo o que eu gostaria de escrever e não consigo, gostaria de sentir e não me satisfaço, gostaria de viver e não alcanço. Pensar em felicidade e não associar imediatamente essa palavra a outras como utopia, impossibilidade e irreal. Pensar em tranqüilidade e não lembrar imediatamente de pesadelos que aconteceram quando eu estava acordada. O que eu queria era viver como todo o mundo, fazer como todo o mundo, e principalmente, sentir (ou não sentir) como todo o mundo. Ser mais um rosto na multidão. Márcia, mas poderia ser qualquer outro nome, com qualquer outra aparência, que teria as mesmas vontades que costumam ser programadas ao nascer. Eu só queria, ah, como eu queria, e tanto, mas não. Como se para mim, fosse reservado só o querer, e por querer tão mais do que tudo, querer e não conseguir o que não existe.
posted by MÁRCIA DO VALLE
17.5.12
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Mais uma para a filha
- Mãe, o que é “meio”.
- Ah, filha, você sabe onde é o meio da barriga?
- Sei, o umbigo.
- Isso. E o meio da cara?
- Não sei.
- É o nariz. E o meio da rua?
- Onde passam os carros?
- Isso. Pronto, você já sabe o que é “meio”.
- Mãe, vamos brincar de descobrir o meio de outras coisas?
O meio do caminho é aquele lugar de onde ainda é possível voltar. O caminho do meio é o dos indecisos, que não conseguem escolher entre direita e esquerda. O meio da vida é o agora, e o meio do agora é a letra “O”. O meio da meia é o calcanhar, mas o meio do meio é um pedaço pequenininho que chamam de um-quarto. O meio do quarto às vezes é a cama, mas o meio do seu quarto é onde no fim de semana ficam aqueles brinquedos espalhados. O meio do DVD é um buraco onde dá para enfiar o dedo, mas também pode ser um filme. O meio de um livro são as palavras, ou os desenhos, ou aquilo que faz a gente ter vontade de ver a página seguinte, e a outra, e a outra. O meio do ovo de páscoa pode ser um brinde ou um bombom, mas o meio do ovo é a gema. O meio da porta é aquele buraquinho para olhar quem está do lado de fora. O meio da cadeira é o lugar certo de sentar, em vez de sentar quase caindo ou com um dos pés no chão. O meio da vela é onde se acende o fogo. O meio do meu coração, o meio do meio do meu coração, é aquele lugar que só descobri depois que você ocupou. Te amo, filha, milhões!
posted by MÁRCIA DO VALLE
30.4.12
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Trabalhinho da escola
Eu gosto da aula de: informática ou inglês ou faz de conta ou música, etc.
Minha filha foi a única da turma que colocou seu nome em “faz de conta”. É bem minha filha mesmo. Porque os nossos castelos, em cima das nossas nuvens, deixam no chinelo qualquer outra aula que aconteça no mundo real. No nosso faz de conta, ela é princesa, eu sou rainha, e todos vivem felizes para sempre, num mundo cor de rosa. Pudesse, eu nunca ensinaria a ela que o faz de conta é maravilhoso, mas nao basta. Pudesse, nós duas viveríamos felizes para sempre, sem nem imaginar a importância de colocar os pés no chão.
posted by MÁRCIA DO VALLE
25.4.12
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Mais uma para a filha
Quando te vejo teimando, insistindo, testando meus limites, dando um jeito de me dobrar para conseguir fazer alguma coisa que eu disse que não pode, claro que cumpro meu papel de mãe e me imponho. Mas no meio disso tudo, me pego pensando que você é igualzinha a mim. Porque até hoje, filha, sou um pouco assim. Se fica determinado que alguma coisa é proibida, é justamente isso que me deixa com mais vontade. É aquela velha história, se alguém de fala para pensar em qualquer coisa menos em elefante, a primeira coisa que passa pela cabeça é: elefante. Por isso, filha, mesmo te dando bronca, te colocando de castigo, tenho que admitir que te entendo. Obedecer a regras que foram criadas por outros e com as quais não concordamos, é chato mesmo. Eu também não tenho essa vocação. Mas na maioria das vezes, é assim que o mundo funciona, e um tempinho depois você nem lembra mais que fez ou deixou de fazer alguma coisa por um motivo que você não concorda. O problema é quando os anos passam e você continua com vontade de fazer ou deixar de fazer alguma coisa tida como proibida. Porque vontade, normalmente é coisa que dá e passa. Quando nem o tempo dá conta de fazer isso acontecer, provavelmente é porque essa vontade vale a pena, mesmo sendo contra o senso-comum.
posted by MÁRCIA DO VALLE
22.4.12
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“May the Force be with you”
Tem dia em que a cabeça dói, o que está dentro quer ir para fora, e eu só queria chegar em casa, para ficar quietinha, de olhos fechados, no escuro. E se alguém me faz o favor maior do mundo de me levar para casa, mesmo que eu fique calada, mesmo que eu me ache no papel de Deus, para punir os pecadores, como um Jesus Cristo que persegue criancinhas em seus pesadelos, mesmo sem admitir na hora, eu ficarei agradecida. Sem dúvida. Porque chegar em casa sozinha nesses dias não é nada fácil.
posted by MÁRCIA DO VALLE
14.4.12
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Era um gole de sake, mas poderia ter sido uma música, um vestido de daminha, uns minutos imobilizada antes de dormir, um trecho de um livro, um encontro ao acaso com aquela senhora que costumava conversar comigo no metrô, um filme no telecine, minha pequena acordando com pesadelo com jacaré no meio da noite,um ônibus depois que já anoiteceu, um grito de um vizinho em dia de jogo de futebol, um ingresso para um musical, a constatação de que minha nuvem foi criada para eu sobreviver ao fato de ser um dos menores, um almoço com os amigos no Centro, uma lembrança misturada com previsão, um esmalte descascando, ou qualquer carta que eu tivesse colocado na mesa. Eu, eu mesma.
posted by MÁRCIA DO VALLE
12.4.12
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“Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro dos filósofos do amor. É normal, saudável. O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter. Nossa ração de poeira das estrelas.”
Marçal Aquino
No facebook, a maioria das pessoas faz questão de provar a todos que é feliz, que tem uma vida divertida, rodeada de pessoas queridas, algumas aventuras e várias visita a lugares lindos. Devo ser esquisita mesmo, porque ao contrário de todos, deixo o facebook quieto e escrevo aqui que minha vida é bem normal, nem sempre feliz, nem sempre como eu gostaria. Escrevo com sinceridade que o ponto alto da minha rotina é acordar com a minha pequena e arrumar ela para a escola enquanto me arrumo para trabalhar. Ao contrario de mim, ela gosta de passar batom todos os dias de manhã, um daqueles que Papai Noel deu. Às vezes, antes de levantar, ela me abraça e pede para ficar só um pouco de chamego, de preguiça. Outros dias, ela diz que não gosta de beijo e carinho toda hora, só às vezes, então levanta e começa a se arrumar sozinha. O tipo de situação que não rende foto para provar minha felicidade para ninguém no facebook, mas que é dos meus maiores motivos de felicidade. A minha vida é assim, cheia de coisas pequenas, detalhes, que formam um mosaico colorido. O livro que comprei essa semana, de onde tirei a frase aí de cima, a latinha de coca zero que peguei da minha geladeira, a musica que tocou quando coloquei o ipod em "musicas aleatórias", o rabo de cavalo no lado da cabeça que a pequena me pede quase todos os dias, a blusa que ficou muito desbotada e acabei dando a alguém, a capivara que vi no caminho para casa, o bilhete na agenda. A beleza não costuma estar em cada pedacinho, mas no conjunto. Alguns pedaços são bastante sombrios, mas se encaixam bem com os outros. Cada dia, um dia. Cada momento, um momento.
posted by MÁRCIA DO VALLE
11.4.12
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"A diferença entre a verdade e a ficção é que a ficção faz mais sentido"
Mark Twain
O convencional nunca foi para mim, e isso faz com que eu me afaste cada vez mais e mais deste conceito. O lógico, o certinho, aquele padrão que a grande maioria busca, não, isso é para os outros. Posso nem saber direito o que busco, o que me faz feliz, mas com certeza é alguma coisa bem diferente disso. Eu crio uma filha sozinha, e isso, que poderia ser considerado uma grande desgraça para muitos "convencionais", é minha maior e inesgotável fonte de felicidade. O mundo real, o meu mundo real, não tem grandes aventuras, se baseia numa rotina de trabalho, passeios com minha filha, e assistir alguma coisa na TV depois que ela dorme. O meu mundo real não é ruim, pelo contrario, toda hora tem seus highlights, como ontem, quando minha filha me disse que quando eu ficasse doente, ela iria cuidar de mim igual eu cuido dela. Mas mesmo assim, mesmo tendo um mundo real diferente do convencional, ele não me basta, e por isso busco os sonhos, por isso escrevo, por isso tenho a minha nuvem me esperando subir a qualquer momento. Porque o mundo real é só o mundo real, e o que realmente me encanta e faz a diferença no meu mundo real, trago para dentro dos meus sonhos também, como nas infinitas vezes em que escrevo para e sobre a minha filha. O mundo real, ainda que com variações, todo o mundo tem, eu sou só mais uma. Mas os sonhos, o mundo dos sonhos que construo um pouco a cada dia, esse é só meu e dos meus convidados, esse é o que me faz única e incomparável. O real é necessário, claro, para todos. O real é esse lugar onde alguns dias são bons, outros ruins, outros maravilhosos e outros catastróficos. Porque no mundo real existe o sofrimento. Mas minha conexão com o mundo real é tão somente a estritamente necessária, de forma que sempre que o sofrimento chega de forma avassaladora, desce algum anjo da minha nuvem com a única intenção de me anestesiar até ficar tudo bem de novo. Isso me faz eternamente grata a esses anjos. Talvez seja essa minha conexão fraca com o mundo real, que me afaste tanto e tanto do convencional. Porque o não-convencional é o mais próximo do mundo dos sonhos que pode existir no mundo real. Posso nem conseguir dar contornos concretos a esse nao-convencional que me encanta, mas sei que ele é quase uma ponte entre os dois mundos, a ponte que preciso para manter meu direito de ir e vir. Pode ser que o nao-convencional seja feito de flashes, pode ser que sejam trechos entre parênteses que aparecem no meio da narrativa principal, pode ser um monte de coisas ou absolutamente nada, mas me permito experimentar um pouco de tudo, até descobrir o que é. Me permito, porque minha narrativa principal já está em curso, com protagonistas bem definidas, então não preciso ter medo dos trechos entre parênteses. Eles só tem a acrescentar, a colorir a ponte que liga os dois mundos.
posted by MÁRCIA DO VALLE
10.4.12
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Sobre o cinema 3D:
- Mãe, os óculos são para fingir que eles estão fora do filme, né?
posted by MÁRCIA DO VALLE
7.4.12
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Mais uma para a filha
Se hoje, eu tivesse que mostrar uma foto da minha família, família num sentido mais amplo do que somente eu e minha filha, seria uma montagem de pessoas que nem se conhecem direito entre si, que na maioria das vezes não tem nenhum laço sanguíneo comigo, mas que são a minha família. Além de mim e da minha pequena (claro), teriam algumas escolhas meio óbvias, como o meu irmão ou meu pai. Algumas pessoas você não precisa encontrar, não precisa nem falar nada, para serem família, sempre. Na foto, teria também aquela amiga que, quando soube que tinha mudado meus planos no dia 31 de dezembro e que ia passar o Reveillon com a minha pequena, nem pensou duas vezes antes de nos convidar para passar com ela. Tem também aquela outra que quando notou num domingo que eu estava a ponto de pifar, me falou que ia almoçar na casa dos pais dela, mas que eu e minha filhota seriamos bem-vindas nesse almoço. Família também são aquelas pessoas que planejam férias comigo, quer seja numa praia do Nordeste com minha filhota, ou numa viagem ao exterior com birita e noitadas. Às vezes, família também pode ser uma prima ao longe, que acaba sendo eleita como família. Ou então, aquela pessoa a quem você confia seu testamento de forma verbal, com a certeza de que será respeitado. Porque família é aquela pessoa que estará ali se você precisar, no matter what. Quem consegue ser considerado família por mais de trinta anos, na minha opinião, merece ter esse cargo de forma vitalícia, mesmo que o planeta comece a girar no sentido contrário.
Enfim, família é um conceito muito vago, que cada um define para si mesmo. Eu já defini o que considero família, mas você ainda está formando os seus conceitos. Então escolhe a foto da sua família do jeito que você sentir com mais força dentro de você. Não importa se você só encontra as pessoas que você escolheu como família a cada quatro meses, não importa se são muitas ou poucas pessoas. O importante é serem pessoas que você ama e confia, pessoas que fazem você se sentir em família.
posted by MÁRCIA DO VALLE
5.4.12
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“Don´t turn your back on paradise”
Pudesse, eu faria capoeira, analise, viajaria a trabalho quando necessário e colocaria minha filha para dormir todas as noites. Pudesse, eu comeria chocolate todos os dias e me manteria com manequim 36. Pudesse, eu passaria a semana santa com quem tenho vontade, sem pensar no depois e, principalmente, sem pensar no antes. Pudesse, eu escreveria sobre gozar e gozar e gozar sem que isso fosse considerado um texto muito profundo para a realidade atual. Pudesse, eu seguiria o conselho da minha filha e conversaria bastante, como se bastasse conversar para o mundo ficar cor de rosa. Pudesse, eu viveria num mundo cor de rosa onde satisfazer minhas vontades não fosse uma coisa tão complicada. Onde a vida não em imprensasse na parede, me sufocasse ... aaaarrrrrgghhhh…e eu não precisasse de uma válvula de escape. Onde o trecho da música antes de “This is how we live, strange although it seems, please try to forgive” não tivesse nenhum significado para mim. Onde cada um não se tornasse responsável pelos que cativa, e onde a proximidade física, ou virtual, ou apenas demonstrações de carinho não precisassem ser arrancadas a fórceps. Porque eu gosto de abraço, de carinho, e de ouvir as coisas que já sei, só para confirmar, só porque é gostoso ouvir. Gosto de fazer as perguntas que todas as outras 999 amigas não fazem, como se eu precisasse disso para ser única e especial. Gosto do que é obvio e ululante, por mais que todos se esforcem muito para não ser verdade. A verdade é que eu queria mais um flash, mesmo que depois eu ficasse com os olhos sensíveis. A verdade é que eu queria mais, só me falta um convite.
posted by MÁRCIA DO VALLE
3.4.12
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