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Quando eu penso que virei uma mulherzinha, bem mulherzinha mesmo, toda precisando de cuidados, descubro que ainda sei brincar de ser mulher maravilha. Que não há nada que uma lingerie nova não possa fazer pela auto-estima, e que um elogio feito pela pessoa certa pode apagar toda a miséria do mundo.
Quando eu penso que baguncei tudo além dos limites, olho para os lados e acho que minha vida até que anda arrumadinha em comparação com o que há por aí. No mínimo, a minha determinação de fazer o que eu acho que seja melhor para mim, mesmo quando dói muito, essa determinação até que pode ser considerada uma qualidade que nem todos têm.
Quando eu penso que a adrenalina é coisa do passado, que fazer besteira ficou lá atrás na minha adolescência, aí essa mesma adolescência reaparece para animar um pouquinho o meu dia. Quando eu penso que já sou uma mulher séria, talvez até sem muita graça, mas séria, lá vem de volta aquele sorriso que eu nem lembrava mais que tinha.
Quando eu penso que estou me tornando uma pessoa amarga, por não acreditar mais em "para sempre", lá vem o destino me mostrar que para sempre nem deve mesmo existir e que essa consciência não é amargura minha não, porque tudo o que começa, termina, e só sobra o que nunca começou.
posted by MÁRCIA DO VALLE
17.7.08
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Um belo dia, percebi que ela tinha ido embora sem deixar vestígios. Tentei entrar em contato algumas vezes, mas não consegui. Então, fui ficando tão desanimada, tão desolada, que até comecei a esquecer que ela existia. Fui me tornando um corpo sem dono, sem vontade própria, sempre de pijama, no máximo de moleton, sem nunca sair de casa e me preocupando só com os outros. Afinal, pensar em mim para que? Quando sentia falta dela, tentava descobrir onde ela tinha se metido. Cheguei a atravessar o continente para ver se encontrava ela lá do outro lado, se banhando em outro oceano, mas nada.
Até que, quando eu já tinha perdido as esperanças, ela decidiu aparecer. Lá estava ela, me olhando, do outro lado do espelho, como se nada tivesse acontecido. Como se ela nem tivesse sumido por uns meses. E ela já chegou logo dando as ordens, traçando planos, me comunicando que tinha feito luzes, ido na manicure, na pedicure, feito depilação e dado um trato geral. Me comunicou que os cabelos estavam mais compridos, que tinha começado a correr no condomínio, que tinha resgatado as calças que estavam no fundo do armário há quase um ano, que tinha comprado tênis e casacos novos, mas que precisava de umas blusinhas novas urgentemente, porque não agüentava mais as minhas blusas velhas e sem graça. Bem a cara dela, já chegar assim. Eu que me acostume de novo com essa alma cheia de vontades e manias e torça para ela não ir embora de novo.
posted by MÁRCIA DO VALLE
11.7.08
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Eu, que sempre fiz tanta questão de ser independente, dona do meu nariz, da minha vida, da minha casa, sem ter que dar satisfação a ninguém. Eu, que sempre busquei alguém que fizesse meu coração bater mais forte, porque todo o resto que eu precisava para a minha vida eu podia fazer sozinha. Eu, que nunca gostei de depender de ninguém para nada, que nem dava atenção às opiniões dos outros, aos conselhos que me davam, nem ao senso comum. Eu, que sempre fiz questão de viver na minha, sem ter que pedir ajuda a ninguém. Eu, que nunca imaginei que um dia tudo isso mudaria tão completamente. Que um dia eu dependeria dos outros até para poder ir ao banheiro tranqüila. Que um dia, eu ficaria imóvel enquanto minha filha dorme no meu colo, torcendo para alguém aparecer sem eu ter que gritar chamando, para eu poder pedir a esse alguém para me trazer um livro para eu ler enquanto eu continuo imóvel para ela não acordar. Mas a verdade é que esse dia chegou. Agora, se eu quiser que meu coração bata mais rápido, eu vou buscar um exercício aeróbico. Porque o que eu busco é alguém que cuide de mim. Se um estranho qualquer se oferecer para me ajudar a subir uma escada com o carrinho de neném, sou capaz de me apaixonar. Se um cara solteiro se oferecer para tomar conta da minha filha enquanto eu tomo banho, sem eu precisar nem pedir, sou capaz de fazer um pedido de casamento. E se alguém consegue acalmá-la quando eu já tentei de tudo para fazê-la parar de chorar, aí então sou capaz de jurar amor eterno.
posted by MÁRCIA DO VALLE
22.6.08
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Quando eu cuido de alguém, é como se aquela pessoa se tornasse tão importante para mim, que se misturasse um pouco comigo. Fico feliz se a pessoa está feliz, triste se está triste, e orgulhosa se a pessoa brilha. Já disse a raposa ao pequeno príncipe: você se torna responsável por aqueles a quem cativa.
A primeira vez que eu cuidei de alguém, foi quando nossa mãe foi nos matricular na nossa primeira escola e me mandou tomar conta de você no quintal da escola. Eu ainda não sabia cuidar nem de mim, então você acabou sendo mordido por outra criança e eu levei a maior bronca. Mas rapidinho eu aprendi a cuidar de você, quando você chorava na sua turma e sua professora te levava para ficar desenhando ao meu lado.
Então, quando eu te vi arrasando naquela tela imensa, cantando Maria, foi muito, mas muito orgulho que eu senti. Porque é como se você carregasse um pedacinho de mim dentro de você. Por isso, a sua felicidade é minha felicidade também. E o seu sucesso é motivo de muito orgulho!
posted by MÁRCIA DO VALLE
16.6.08
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Falando de mim
Hoje eu vim aqui para falar de mim. Tudo bem que, mesmo falando de mim, na segunda frase o sujeito sempre é a minha filha. Sei que atualmente minhas orações são sempre subordinadas: a minha reação subordinada a uma ação dela. Mas mesmo assim, hoje eu vim aqui para falar de mim. Vim falar da minha desorientação, da minha descrença, da falta que a esperança me faz e, é claro, da minha filha também. Dizem que é normal não conseguir se olhar com muita individualidade nos primeiros meses depois do parto, e torço para isso realmente passar daqui a pouco. Por isso, hoje eu vim aqui falar de mim. Falar das minhas expectativas, ou mesmo da falta delas. Falar da vontade que eu tenho de conhecer alguém que me faça acreditar em “para sempre”, mesmo sabendo que eu não vou acreditar em “para sempre” para sempre. Falar do meu medo atual de levar minha filha para andar de avião, do meu medo de levar minha filha para um lugar onde ela pegue sereno, do meu medo de levar a minha filha para um lugar muito barulhento, e de todos os outros medos que fazem com que os outros digam que eu sou uma mãe fresca demais. Não, mas eu não vim aqui para falar da minha performance como mãe fresca, eu vim aqui para falar de mim e só de mim. Falar que não sonho mais com um amor maior, não com um amor de homem e mulher, ou de homem e homem, ou de mulher e mulher, depende das preferências de cada um. Enfim, não sonho mais com esse amor a dois, a não ser que seja o amor de mãe e filha. Opa, olha eu falando nela de novo! Não, hoje eu vim aqui falar de mim. Falar que trocaria todos esses sonhos que eu já tive com um amor a dois por alguém que simplesmente me trouxesse estabilidade, que cuidasse de mim, mesmo sabendo que isso nunca duraria muito tempo se não tivesse também um pouquinho de tesão que fosse, e que seria só mais uma tentativa frustrada de ter uma vida a dois. Só mais uma para a minha coleção. Pronto, finalmente consegui escrever algumas frases seguidas sem falar na minha filha. Ops, falei de novo!
posted by MÁRCIA DO VALLE
10.6.08
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Mais uma carta para a filha
Eu sempre soube que não tinha nascido para ser uma boa dona de casa. Cozinho mal, não sei passar nem tirar manchas. Também nunca achei que tinha nascido para ser a profissional mais dedicada do mundo. Infelizmente, também não nasci para ser a escritora que vai revolucionar a literatura, ser reconhecida com vários prêmios e ter minha obra traduzida para diversos idiomas. Também sei que não nasci para ser a esposa ideal. Aliás, nem tenho certeza se nasci para ser esposa, muito menos ideal. Como eu também não nasci talhada para tocar nenhum instrumento musical, nem para praticar nenhum esporte e, por mais que eu goste de dançar, sei que não nasci para ser a nova revelação da dança, por todos esses motivos, eu sempre vaguei meio sem rumo por aí. Sempre fiz um pouco de tudo, mas nada com perfeição. Só agora é que eu descobri qual a minha verdadeira vocação: nasci para ser sua mãe. Porque eu escuto todo o mundo falando que acabava ficando de saco cheio de cuidar de neném quando teve filho, porque é trabalho demais, e eu até concordo que seja trabalho demais, mas não me canso de cuidar de você. Pelo contrário, fico é preocupada de pensar que daqui a pouco eu vou ter que voltar a trabalhar e dificilmente alguém vai ter tanta paciência com você quanto eu tenho. Não estou querendo me gabar nem tirar onda de melhor mãe de mundo, mas se existe uma coisa que eu realmente faço com gosto, é cuidar de você. O seu primo gosta de ficar te olhando e falando: olhinho pequenininho, boquinha pequenininha, orelhinha pequenininha... E ele vai enumerando todas as partes do corpo que ele lembra. Como eu não tenho mais quatro anos como ele, não fico falando em voz alta (porque iam acabar me rotulando de maluca). Mas confesso que passo os dias e noites inteiras maravilhada de olhar para a sua boquinha pequenininha, o seu olhinho pequenininho, o seu narizinho pequenininho... E lá no fundo, me pergunto como é que eu, logo eu, consegui ter uma filha tão lindinha assim! Mas a verdade é que consegui e agora cuido da filhinha mais linda que eu já vi no mundo!
posted by MÁRCIA DO VALLE
2.6.08
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“Se o que sou, é também
o que eu escolhi ser
aceito a condição”
Eu ia esvaziando aqueles armários, encaixotando a papelada, mas era como se, a qualquer momento, eu fosse me surpreender com uma chegada inesperada. Porque, quando eu menos esperasse, eu mesma ia entrar pela porta da sala, voltando do trabalho numa sexta-feira. Daí, ele ia insistir para eu não matar a aula de hidroginástica e eu acabaria indo. E quando eu voltasse, ele ia implicar que com certeza eu não tinha tomado banho depois, porque continuava com cheiro de cloro. E depois, a gente pediria uma pizza na pizzaria mille, metade marguerita e metade o que ele escolhesse. E enquanto a pizza não chegasse, a gente escolheria um filme para pedir na locadora, e eu ia sugerir todos os romances do folheto de lançamentos, e ele ia querer um filme de ação.
Hoje, quando eu chamei o elevador, o porteiro me deu a correspondência. Tinha chegado um folheto novo com os lançamentos da locadora. Na capa, estava aquele último filme que a gente viu no cinema. Aquele que eu saí no meio e fiquei te esperando assistindo um pedaço do filme da sala ao lado, porque eu estava levando muitos sustos.
É, cada canto entre aquelas paredes já tinha uma história. E cada história estava ficando para trás, encaixotada junto dos lençóis, das toalhas e dos cobertores. E eu continuava com a sensação de que, de repente, eu ia acordar ao lado dele, naquela cama, num sábado de manhã, e essa mudança seria só um sonho. Talvez um pesadelo. E eu ia levantar e fazer as unhas no salão da esquina, enquanto ele continuava dormindo. E depois a gente ia chamar alguém para almoçar lá em casa, talvez meu irmão, talvez o tio dele, a gente poderia chamar a Paula também, e quando a gente se desse conta, a casa estaria cheia de gente, todo mundo disputando um lugar na varanda e assistindo trechos dos meus DVDs. E no dia seguinte, no domingo, você faria planos excelentes para a sua segunda-feira, e não cumpriria quase nenhum, mas isso não me afetaria em nada. No máximo, eu ia reclamar um pouquinho.
Dentro daquelas malas e caixas, eu devo ter colocado também os beijos de boa noite que ele me dava, o cheiro do cachorro quente que a gente gostava de fazer de vez em quando, as listas de mercado que eu fazia e ele acrescentava mil coisas, e as vitaminas que eu batia no liquidificador quando acordava e as flores coloridas que a gente comprou no Centro e ele plantou há um tempão atrás, mas que agora já tinham virado só uns galhinhos secos. Devo ter encaixotado até aquela noite, quando eu ainda morava sozinha, e ele veio montar o móvel da cozinha para mim. Dentro daquelas caixas, tinha que caber toda a minha saudade do que estava ficando para trás, para nunca mais. Tudo aquilo que eu não me arrependo nem uma vírgula de ter vivido, mas que não tem como continuar.
posted by MÁRCIA DO VALLE
26.5.08
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“Veja você
onde é que o barco foi desaguar
a gente só queria um amor”
Amor não leva ninguém a lugar nenhum não. O que move o mundo são interesses, afinidades e sonhos nada românticos. Porque nessa realidade onde não existem príncipes encantados, também não existem finais “e viveram felizes para sempre” com um grande coração vermelho na última página. Felizes, até pode ser, mas não por causa desse coração simbolizando o amor. Felizes porque ela se aproximava do ideal de boa esposa que ele imaginava, ou porque ele trazia a estabilidade financeira que ela precisava, ou porque um dos dois queria pôr fim à solidão, ou desejava constituir uma família, ou estava pressionado a corresponder aos padrões já pré-fabricados pela sociedade. Amor, isso só tem espaço na vida dos loucos, dos que sonham mais do que o recomendado, e dos que sempre quebram a cara. Porque sair em busca de amor é se auto-condenar ao fracasso. Amor não traz uma união feliz entre duas pessoas não, o que traz é a vontade de estar junto de alguém, ou a vontade de representar o papel de namorada, ou esposa, ou até mesmo de mãe. Porque as uniões duradouras nunca nascem de grandes paixões que viram grandes amores. Não, isso é coisa que só existe para inspirar poemas, músicas e outras demonstrações artísticas de que tem sua vida sempre virando de cabeça para baixo. Amor não move ninguém que tenha a cabeça no lugar não. Mas mesmo assim, tem gente que não aprende isso nunca.
posted by MÁRCIA DO VALLE
24.5.08
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"Past the point of no return
no backward glances
the games we've played 'till now are at an end"
Mesmo que você fale tudo o que eu passei anos sonhando em ouvir de você, mesmo que você me prometa mundos, fundos, ouro, diamantes, fidelidade, amor eterno, a lua e as estrelas também, mesmo que você prove por A + B que está disposto a cumprir essas promessas de me dar tudo isso (inclusive a lua e as estrelas), mesmo assim a minha resposta é: “não, obrigada”. Porque eu sei exatamente como é estar com você. Sei tão bem, a ponto de ter certeza de que não quero mais nada parecido na minha vida. Não quero mais viver de expectativas frustradas, planos desfeitos sem aviso prévio, desilusões constantes e solidão. Não, obrigada, pode oferecer a outra pessoa a grande chance de viver tudo isso ao teu lado. Eu já tive minha cota e foi bem mais do que o necessário. E não adianta insistir, porque não estou aberta a negociações. Não sei me entregar pela metade, muito menos por pena. Não sei, e nem pretendo aprender, a agir em desacordo com meus sentimentos.
posted by MÁRCIA DO VALLE
13.5.08
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Copas fora
Você tinha o baralho inteiro nas suas mãos para jogar o que você quisesse. Só que, em vez de escolher um jogo e começar logo uma partida, você passou anos só embaralhando, embaralhando, cortando e enrolando. Agora, não dá mais para jogar nem sueca, quanto mais pôquer com aposta mínima. Porque durante esse tempo que você passou embaralhando e sem sair do lugar, você foi perdendo algumas cartas, uma de cada vez, até só sobrar o mico preto. A dama de copas já saiu da sua mão há muito tempo. Agora ela se descobriu dona de um naipe inteiro: o do coração. O coração que não pulsa mais por você.
posted by MÁRCIA DO VALLE
10.5.08
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Acreditando no que eu gostaria que fosse verdade
Viver fora das fantasias que minha cabeça insiste em criar é muito doloroso. Porque é muito mais fácil acreditar que aquela pessoa, que nunca faz o que combina, vai mudar e cumprir todas as promessas lindas que tem feito. Mais cômodo acreditar que o futuro não só vai ser completamente diferente do passado, mas também vai ser muito melhor. Mais tranquilizador acreditar que todos os sonhos que eu batalhei muito para se realizarem e que continuaram sem se realizar mesmo assim, vão se realizar de uma hora para a outra. E se é para acreditar em tudo isso, também quero acreditar em Papai Noel, para os meus dezembros serem mais felizes. Quem sabe se essas ilusões que eu crio não podem virar realidade? Vai ver, a vida pode mesmo ser uma sucessão de momentos incríveis, sem rotina, sem convenções, sem obrigações nem responsabilidades. Vai ver, aquela pessoa para quem eu já dei novecentos e cinqüenta e sete chances, está só esperando mais essa última oportunidade para mudar. Vai ver, aquela cenoura que amarraram na frente do burro para faze-lo andar, essa cenoura vai acabar sendo alcançada por esse pobre burrinho sim. Vai ver, nesse fim de ano Papai Noel vai me dar o apartamento que eu quero.
posted by MÁRCIA DO VALLE
27.4.08
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Para mim, é muito difícil assimilar que eu não sou mais sua mulher. Porque mesmo quando a gente ainda não estava junto, eu já era sua mulher. Mesmo quando a gente ficou meses sem se ver, eu continuava sendo sua. E quando eu tentava te esquecer com outros, sem sombra de dúvidas que eu era sua sim. Sei que, na maior parte desse tempo, você não era meu marido, nem meu namorado, nem nenhuma outra palavra que possa ser colocada depois do pronome “meu”. Sei que, na maior parte desse tempo, eu estava com você, mas você não estava comigo. E por mais que eu tentasse te fazer estar comigo sim, você me esperava virar as costas para me enganar, já que você não estava mesmo comigo. E quando a gente viajava, nem durante aquele período limitado você se dispunha a estar comigo como eu estava com você. E quando eu tentava me afastar de você, aí mesmo é que você não estava comigo nem em sonhos ou pesadelos. Só que um dia, depois de tanto tempo sendo sua e continuando sozinha, alguma coisa mudou e eu deixei de estar sozinha. Por mais inverossímil que parecesse, você passou a estar comigo tanto quanto eu estava com você. Você passou a ser meu homem enquanto eu era sua mulher. E para isso acontecer, eu precisei passar por cima do meu orgulho, dos conceitos de uma sociedade inteira e, principalmente, das suas barreiras interiores. Não foi nada fácil não, mas pelo menos eu achei as épocas difíceis tinham ficado para trás. Que o tempo em que eu era sua e estava sozinha, isso tinha ficado no passado. Só que, quando eu menos queria, isso voltou a ser realidade. E se já era difícil não ser sua antigamente, agora mesmo é que ficou impossível. É como se tivessem me dado uma amostra grátis só para eu sentir que gosto tem a felicidade.
posted by MÁRCIA DO VALLE
19.4.08
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